Tu queres ouvir uma história de amor?
Numa ilha há muitos e muitos anos, vivia um povo ligado à Natureza. Falavam a língua dos animais, das pedras e dos vegetais e todos viviam em harmonia. As árvores e as pedras se ofereciam para construir as casas e utensílios domésticos. Todos eram e viviam muito coloridos e alegres, e tocavam música com instrumentos musicais de sons maravilhosos. Pintavam suas peles e cabelos com pigmentos obtidos das sementes das frutas e dos minerais da própria terra. Sempre havia festas em agradecimento à Natureza, que aconteciam numa praia de águas límpidas e cristalinas.
Quando havia temporais ficavam felizes porque o ar e a terra eram purificados.
Toda manhã nas areias daquela praia a Leste, cantavam, dançavam, se amavam, e comiam frutas e sementes para reverenciar e agradecer a Natureza.
Neste lugar havia um dragão. Ele era verde. Soltava fogo, que ajudava no aquecimento no inverno e para cozinhar os alimentos. Protegia e brincava com as crianças, que escorregavam nas suas costas, ou se agarravam em suas escamas. E também voava, o que a todos maravilhava.
Numa manhã, após um grande temporal, surgiu próximo à praia um objeto muito estranho. Seria outro dragão? Era um objeto enorme, feito de pedaços de galhos amarrados com cipó. Por isso deram o nome de Galheta àquele “barco” estranho.
Dentro dele havia outras pessoas, de pele branca e cabelos claros, diferente da cor da pele e dos cabelos das pessoas daquela ilha. E usavam roupas, que não conheciam. E falavam outra língua.
Vieram do céu? Vieram do mar? Vieram de onde? Que seria aquilo?
As pessoas da “galheta” gritavam e gesticulavam, e os nativos não compreendiam o que se passava.
Os velhos pediram silêncio e pelos gestos compreenderam que estavam perdidos. A tempestade os havia arrastado para aquele lugar e estavam encalhados, não podiam seguir viagem.
Imediatamente todos se mobilizaram. Cavalos, golfinhos, bois e cipós se ofereceram para ajudar. Chamaram a maré, as ondas do mar e o vento. A maré subiu e o vento provocou uma onda grande e suave para formar um buraco a fim de que o barco novamente pudesse flutuar.
As pessoas da “galheta” nunca haviam visto gente tão livre e tão feliz. Todos viviam nus, muito coloridos e só se protegiam do frio com o calor do fogo do dragão.
Junto ao barco ajudando estava um casal apaixonado, Íris e Arcon.
Quando o barco novamente flutuou, se deram conta que não dava mais pé. Arcon ficou preso à embarcação, enredado nos cipós que haviam usado para puxar com os bois e os cavalos.
O barco foi se afastando e só então Iris percebeu que Arcon estava com seus pés presos nos cipós e era arrastado pelo movimento do barco. Desesperada ela gritava para a “galheta” parar, mas os que estavam a bordo não compreenderam. Depois de muita luta, ele conseguiu se livrar, mas foi para o fundo do mar e o barco seguiu viagem. Os da praia não conheciam o fundo do mar e não sabiam como resgatar Arcon.
Todos choraram muito a separação dos dois amantes. As pessoas, as plantas, as árvores, os animais e as pedras. O céu chorou tanto que caiu uma enorme tempestade, a maior de todas. Das lágrimas do céu surgiu uma grande lagoa. A terra tremeu tanto de tristeza que houve um grande terremoto, surgindo então uma montanha entre o mar e a lagoa. Mas todos permaneceram na praia esperando Arcon, que não mais retornou.
Íris pediu aos peixes e às ondas que a levassem para se encontrar com Arcon. Foi levada e lá ficou. Os peixes e as gaivotas passaram então a levar alimentos para o casal.
A Natureza lhes fez então uma homenagem. As pedras à esquerda da praia da Galheta se transformaram e a partir de então se pode ver Arcon abraçando Íris, e quando a maré baixa pode-se ver os seus cabelos verdes. Sempre está ali um casal de gaivotas.
À direita, onde é a praia Mole, está o dragão, com a sua cabeça repousando no mar, na ponta do Gravatá, e sua cauda em direção à Lagoa da Conceição.
A partir de então, nas chuvas de tarde de verão pode-se ver o Arco-Íris brilhando no céu.
Assim Néria contou e Reynaldo transcreveu.